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Cecilia Payne: a mulher que descobriu que o Sol é de hidrogênio.

 

Parece até brincadeira, mas no tempo de Cecilia Payne (10 de maio de 1900 – 7 de dezembro de 1979) as pessoas achavam que o Sol tinha a mesma composição da Terra. Imagine isso. Payne publicou sua tese “Atmosferas estelares, uma contribuição para o estudo da observação da temperatura alta nas camadas revertidas de estrelas” (Stellar Atmospheres, A Contribution to the Observational Study of High Temperature in the Reversing Layers of Stars) com apenas 25 anos e foi a primeira pessoa a ter doutoramento na área da astronomia. Seu trabalho foi classificado como uma escrita brilhante e muito louvada. Ela permaneceu esquecida até o remake de Cosmos que foi ao ar em 2014. Payne e outras mulheres e homens da ciência até então esquecidos vieram a luz novamente, mostrando que o trabalho dos cientistas atuais são apenas um grão de areia comparado ao científico passado glorioso.

Cecília Payne era inglesa e filha de intelectuais. Antes de se tornar uma brilhante taxonômica de estrelas, ela estudou botânica, química e física. Foi aluna de Rutherford e se encantou com a astronomia após ver uma palestra de Sir Arthur Eddington sobre relatividade. Muito determinada, foi para Harvard e deu de cara com o típico machismo da época: o ambiente era dominado pelos homens, ela era proibida de chegar perto dos aparelhos eletrônicos e seu salário fazia parte das despesas com máquinas. Para piorar, ao tentar terminar sua tese de doutoramento, foi barrada pelo diretor do Departamento de Física da Universidade, que não aceitou uma mulher. Além disso, Harvard não tinha diploma de astronomia e Payne ficou durante um tempo nas mãos de Lyman, o diretor do departamento. Um tempo depois ele decidiu ceder e recomendá-la para a secretaria de Harvard. Assim, o Departamento de Astronomia foi criado e Payne foi a primeira pessoa a se doutorar em astronomia em Harvard.

O doutorado de Payne se concentrou na problemática da temperatura das estrelas, um assunto que ainda não tinha sido de fato entendido pela astrofísica. Ela se apoiou na física quântica e na estrutura do átomo para explicar as linhas espectrais das estrelas além de afirmar que elas eram compostas de aproximadamente 90% de hidrogênio. Essa ideia estremeceu a comunidade científica da época, que se recusava em dar crédito a uma moça de 25 anos. Henry Norris Russel havia defendido que era o ferro o elemento mais abundante, cerca de 66%. Para ele, era claramente impossível não haver hidrogênio no Sol. Foi apenas em 1929, 4 anos depois e 71 páginas de doutoramento depois, que Russel admitiu estar enganado e deu crédito a Payne.

Mesmo com todo este brilhantismo acadêmico, Payne ainda achou fôlego para ser mãe de 3 filhos e se casar com o russo Sergei Gaposchkin. Aos 35 anos deu a luz o primeiro filho e quando morreu, aos 79, tinha escrito mais de 300 artigos.

Payne foi uma cientista ativa até o último ano de vida: meses antes de morrer, publicou seu oitavo e último livro intitulado “Stars and clusters”. Trabalhou com o marido em várias pesquisas, além de ser a primeira mulher a se tornar cátedra de Harvard. Aposentou-se aos 66 anos, mas nunca deixou de dedicar-se a ciência.

Para Cecília, “A recompensa de um jovem cientista é a emoção de ser a primeira pessoa na história a ver ou compreender algo. Nada se compara a essa experiência … A recompensa de um velho cientista é de ter visto um esboço crescer em uma grande paisagem. Não o quadro completo, que ainda está crescendo em pormenores, com a utilização de novas técnicas e habilidades.”. Mulheres como Payne são uma grande inspiração para futuras pesquisadoras como eu. O seu trabalho é o combustível da ciência e da persistência em tudo aquilo que entendemos de fato e que podemos passar adiante. Viva Payne!

Para saber mais: http://bit.ly/1Bs6wCD, http://bit.ly/1BCA7Yq, http://bit.ly/1xwqqeK, http://bit.ly/14eHt9b.

Autor(es):

Yara Laiz Souza

Sou graduanda de Ciências Biológicas e pesquisadora da área de Genética Populacional, apaixonada por astronomia e pipoca.

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