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Nebulosas: quando a pareidolia se torna útil

 

Já escrevi e publiquei no Livres Pensadores um texto sobre a pareidolia e os problemas que ela nos causa (“Pareidolia – O que é e porque nos engana”). Tenho outro texto escrito e pronto para publicação também, com mais exemplos de pareidolia, mas que será publicado apenas em outubro. Neste texto, por outro lado, quero demonstrar um pouco do “lado bom”, digamos, da pareidolia.

Você tem ideia de quantas fotos só o Telescópio Espacial Hubble tirou e mandou para a Terra? Segundo essa página do HubbleSite, em 2005 já eram mais de 700 mil imagens. Segundo a Wikipedia, mais de 9.000 trabalhos com base em dados do Hubble foram publicados em jornais e peer-reviewed, sem falar em inúmeros outros que surgiram em anais de eventos. É muita coisa.

Todas essas imagens são nomeadas na forma “hs-ano-número da foto”, como em “hs-2010-22”. No caso, essa foto em específico é essa abaixo.

hs-2010-22-a-large_web

Contudo, essa não é uma nomenclatura muito fácil. Mais que isso, identifica apenas a imagem em específico, não o local que ela representa. No caso dessa foto específica, ela retrata um aglomerado estelar aberto em uma nebulosa, região que foi nomeada como NGC 3603. Algumas vezes esse local é tratado como um “aglomerado estelar aberto envolto por uma nebulosa” (como na Wikipedia) e outras vezes como “uma nebulosa contendo um aglomerado estelar aberto”, como nesta página da NASA, mas pouco importa.

A parte NGC desse nome vem de “New General Catalog” (ou “Catálogo de Objetos NGC”, como é chamado no Brasil), que é o mais conhecido dos catálogos astronômicos de objetos do céu profundo existentes. Contém quase 8.000 objetos, dentre os quais estão galáxias, nebulosas, aglomerados estelares, entre outros. Essa nomenclatura é dada, basicamente, na forma “NGC + um número”, número esse que é sequencial. Assim, o objeto NGC 3603, da foto acima, foi o 3603º objeto adicionado nesse catálogo.

Ainda existem outros catálogos como o Messier e diversos outros, como pode ser visto nesta página da Wikipedia. Alguns objetos, aliás, estão inseridos em mais de um desses catálogos. Por exemplo, temos a Nebulosa de Órion, classificada como Messier 42 e NGC 1976.

different orion nebula hubble and spitzer

Ainda assim, há um grande problema: esses nomes, “NGC algum número”, “Messier algum número” (ou simplesmente “M algum número”), não são algo muito fácil de decorar e lembrar. Ligar a “cara ao nome” mesmo. Assim, precisamos dar nomes de verdade para esses objetos, ou ao menos para os mais estudados. Nomes como “Nebulosa de Órion”.

Isso até pode parecer estranho, mas pense bem. Para o caso das nuvens, que são extremamente volúveis, temporárias, não faria sentido dar nomes. Mas para o caso de objetos celestes, como nebulosas ou galáxias, que permanecem por longos períodos de tempo e são profundamente estudadas, por séculos… Faz sentido. Mas como fazer isso, isso é, como nomeá-las?

Alguns casos, como o da Nebulosa de Órion, são simples. Afinal, já conhecíamos essa nebulosa antes mesmo de sabermos que ela era uma nebulosa. Pensávamos que fosse uma estrela, a qual chamávamos de Theta Orionis e que fazia parte da Constelação de Órion: a estrela central da “espada” de Órion. Assim foi fácil, bastava chamar de “Nebulosa de Órion”.

Constelação de Órion com sua representação artística.

Constelação de Órion com sua representação artística.

Contudo, outros casos são bem mais complicados. A questão é que podem existir inúmeras nebulosas em cada constelação, ou até próximo de cada estrela, etc. Precisávamos, de fato, conseguir nomes únicos, os quais, mesmo que você sequer soubesse onde tal nebulosa fica, poderia ouvir seu nome e lembrar-se de sua imagem. Não apenas para os cientistas – por mais que isso possa ajudá-los – mas para o poder conquistar público leigo.

A resposta a esse problema surgiu, por incrível que pareça, automaticamente. Surgiu antes mesmo que isso realmente fosse um problema. E qual a solução? Oras, a pareidolia.

Vamos ver exemplos? Pois, então, veja abaixo a galeria de imagens que preparei.

Tudo bem, algumas lembram mais, outras menos, aquilo que lhes deu o nome. Mas, ainda assim, são belas imagens, não? E uma pareidolia não precisa, necessariamente, ser idêntica a alguma coisa – precisa apenas lembrar aquela coisa. Mais ainda: no caso das nebulosas a única coisa importante é que sejamos capazes de “ligar o nome à pessoa”, no que a pareidolia ajuda e muito. E, convenhamos, é muito mais fácil se lembrar de “Nebulosa Olho de Gato”, do que de NGC 6543, quando estivermos falando dessa Nebulosa Planetária em específico.

Assim, por mais problemas que um fenômeno como a pareidolia possa nos causar, ainda podemos encontrar bons usos para ele. Usos, esses, inclusive dentro da ciência como é o caso. Quer dizer, não precisamos simplesmente parar de ver “faces em marte” ou “corações no céu”, apenas temos de ter bom senso e fazer bom uso disso.

Autor(es):

Mário César Mancinelli de Araújo

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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