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A Busca por Inteligência Extraterrestre e seus Problemas

 

Desde os primórdios da civilização humana olhamos para o céu e nos perguntamos “haverá alguém lá fora?”. No início, víamos as estrelas como fogueiras, entorno das quais outros seres se reuniriam. Depois, como presença “celestial” – uma demonstração de que anjos e demônios seriam reais.

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Depois, conforme o conhecimento humano cresceu, forçando o nascimento da ciência, descobrimos que estrelas são algo totalmente diferente. Primeiro, que são nada mais que gigantescos fornos nucleares, que fundem elementos mais leves em mais pesados. Mais recentemente descobrimos o mais importante: estrelas são outros sóis.

“Entre Aristarco e Huygens, os seres humanos responderam à pergunta que tanto me intrigou quando menino do Brooklyn: O que eram as estrelas? A resposta é: As estrelas são sóis poderosos, a anos-luz de distância na vastidão do espaço interestelar.”

– Carl Sagan, Cosmos, página 202.

Mais impressionante do que isto, descobrimos que existem planetas orbitando estes outros sois, o que faz, novamente, que nos voltemos à pergunta mais primitiva: “haverá alguém lá fora?”.

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Para responder tal pergunta existem buscas sérias por vida extraterrestre, seja ela do tipo que for (o que inclui vida microbiológica). Um exemplo disso é o NAI (NASA Astrobiology Institute), da NASA, o qual é sempre parte de missões de envio de sondas a Marte, por exemplo. Nada foi encontrado até agora, mas a busca continua.

Sobre vida inteligente, a coisa é mais complicada. Para começar, já verificamos que ela não existe em nossas redondezas, o Sistema Solar. Mas quem sabe em nossa galáxia? Pois bem, para tentar responder esta pergunta foi criada a Equação de Drake, a qual você pode ver abaixo.

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Da Wikipedia:

Onde:

N é o número de civilizações extraterrestres em nossa galáxia com as quais poderíamos ter chances de estabelecer comunicação.

R* é a taxa de formação de estrelas em nossa galáxia

fp é a fração de tais estrelas que possuem planetas em órbita

ne é o número médio de planetas que potencialmente permitem o desenvolvimento de vida por estrela que tem planetas

fl é a fração dos planetas com potencial para vida que realmente desenvolvem vida

fi é a fração dos planetas que desenvolvem vida inteligente

fc é a fração dos planetas que desenvolvem vida inteligente e que têm o desejo e os meios necessários para estabelecer comunicação

L é o tempo esperado de vida de tal civilização

Contudo, tal equação é fortemente baseada em simples especulações, sem dizer que não existe conhecimento científico suficiente sequer para chutar os valores de muitas das incógnitas com uma porcentagem mínima de erro. Por isso mesmo existem páginas na web com scripts simples para o cálculo da Equação de Drake, onde você pode brincar à vontade. Um exemplo disto é esta página. Assim, por mais importância que a Equação de Drake tenha, ela não passa, hoje, de mera curiosidade. Mas ela serviu para dar o incentivo inicial para diversos projetos de busca por inteligência extraterrestre (SETI – Search for ExtraTerrestrial Inteligence – Busca por Inteligência Extraterrestre).

Os esforços do SETI iniciaram na NASA no final dos anos 1960 e início de 1970, sendo que alguns desses esforços incluem o Projeto Orion, Projeto de Observação de Microondas, a Pesquisa de Microondas de Alta Resolução e Para Outros sistemas Planetários. Em 12 de outubro de 1992, a NASA iniciou um programa SETI de forma formal e mais intensa.

De outro lado, em 1984 nascia o SETI Institute (leia mais aqui), projeto independente que pretendia conseguir financiamento público e, depois, trabalhar em parceria com a NASA. Contudo, em 1993 o Congresso norte-americano cancelou o programa SETI da NASA e o SETI Institute acabou sendo abraçado pela Universidade da Califórnia, Berkeley, onde continua em funcionamento até hoje.

Allen Telescope Array, utilizado pelo Instituto SETI para a captação de transmissões de rádio vindas do espaço.

Allen Telescope Array, utilizado pelo Instituto SETI para a captação de transmissões de rádio vindas do espaço.

“Quem sabe, aqui e ali, crivados pelo espaço, girando ao redor de outros soís, existam mundos semelhantes ao nosso, em que outros seres olham para o céu e se perguntam, como nós, quem mais vive na escuridão. A Via Láctea estaria fervilhando de vida e inteligência – mundos chamando outros mundos – enquanto nós, na Terra, vivemos o momento crítico de decidir escutar pela primeira vez?”

– Carl Sagan, Pálido Ponto Azul, página 157.

O mais interessante é que qualquer um pode participar do SETI Institute em sua busca: basta que você baixe e instale o BOINC, programa usado para processar os dados coletados pelo SETI, adicione a ele o projeto SETI, crie sua conta e pronto! Você já está ajudando nesta busca. E isto é feito porque a quantidade de processamento necessária para verificar tudo o que foi capturado pelo SETI é gigantesca.

Como o SETI funciona

O SETI busca sinais de civilizações extraterrestres tecnológicas procurando por ondas de rádio vindas de fora da Terra. Isto não é tão simples, pois o universo tem uma característica intrínseca, que é o fato dele estar repleto de ruídos de rádio, os quais são gerados por fenômenos que ocorrem naturalmente. Mas existe uma faixa de frequências que vai de 1 a 10 GHz, onde existe uma queda brusca nesse ruído.

Nessa região, existem duas frequências causadas pela excitação de átomos e moléculas: em de 1,42GHz, provocada pelos átomos de hidrogênio (H), e a de 1,65GHz, vinda dos íons hidroxila (OH). Como o hidrogênio e os íons hidroxila são componentes da água (H + OH = H2O), essa área tem sido chamada de “buraco da água”.

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Assim, a buscas por transmissões de rádio advindas de inteligências extraterrestres que estejam nestas frequências específicas é tremendamente facilitada devido a esta queda de ruído. E é justamente nelas que o SETI se foca.

Os problemas do SETI

O SETI Institute tem diversas falhas em sua pesquisa. O primeiro problema é a própria forma de busca: rádio. Não há como ter certeza de que todas as civilizações passarão pelo período de rádio transmissão de alta energia (tipo de rádio transmissão que sobrevive por distâncias maiores que 1 a 2 anos luz).

Nós, seres humanos, produzimos poucas transmissões deste tipo, por serem frequências de radiação tão altas. Este tipo de transmissão é mais comum em comunicação com sondas espaciais e, de forma mais rara, com satélites.

Segundo problema é o fato do SETI concentrar suas pesquisas apenas no espectro de ondas de rádio chamado “buraco da água”, o que limita tremendamente a possibilidade de algo ser encontrado (já que esta região do espectro eletromagnético é bastante pequena).

Além disso, alguns especulam que uma civilização usa transmissões de rádio por muito pouco tempo e, então, tudo passa a ser transmitido por fibras ópticas (ou coisas que o valham). Então este seria o terceiro problema.

Isto, claro, sem falar em diversos outros problemas com os quais o SETI tem de lidar diariamente, como verificar se a transmissão vem realmente do espaço distante ou de um simples satélite militar, por exemplo.

Outra questão interessante que entra nisto tudo é sobre se só poderíamos fazer telecomunicações por rádio. É o que usamos, mas se fossemos começar do zero hoje, quem sabe o que usaríamos? Afinal, também pode-se transmitir informação via lasers.

O último problema é algo que os cientistas do SETI têm de enfrentar quase diariamente é a gozação e deboche por parte de outros cientistas.  Mas esse problema é da comunidade científica, não do SETI ou de sua equipe. Eles são vistos como uma espécie de ovelha negra no meio, como lunáticos, malucos.  Assim, convenhamos, eles têm que ter muito amor à causa, para enfrentar tudo isto.

Conclusão

A possibilidade de o SETI encontrar civilizações extraterrestres é realmente remota, gasta-se muito tempo e dinheiro, numa busca que pode nunca trazer resultados. Será que vale a pena esta busca? Afinal, não existem melhores maneiras de usar todo esse dinheiro, ao invés de tentar encontrar algo que apenas talvez exista?

Vejamos. Na Itália, no início do século XVII, Ferdinand e Cosimo, membros da família Medici, ofereceram um subsídio regular (dinheiro mesmo) para um acadêmico de Pádua: Galileu Galilei. Como resultado, Galileu encontrou manchas no Sol e luas orbitando Júpiter. A questão é que, ao invés de fazer isso, eles poderiam ter gasto o dinheiro em outra coisa, como comprando refeições ou vinho. Mas o trabalho de Galileu virou nossa visão de mundo de cabeça para baixo, mostrando que Copérnico estava certo. Vai dizer que não valeu a pena?

Este é o ponto: nenhum centavo usado para fazer ciência é “gasto”, mas investimento. Ciência sempre vale a pena, não importa o quanto custe. A corrida espacial, por exemplo, que culminou nas viagens à Lua também foi extremamente cara. Ainda assim, aproveitamos até hoje de materiais e tecnologias, inclusive em nosso dia a dia, que foram criadas apenas para aquela “disputa imbecil” entre EUA e URSS.

Isto sem falar que o SETI não recebe um só centavo do governo norte-americano, que seria dinheiro público: tudo vem de doações. E, com a crise financeira, eles têm recebido cada vez menos dinheiro. Por isso mesmo eles enviam, a todos que colaboram na busca através do uso do BOINC, e-mails pedindo por doações.

Ainda, com todos os problemas que o SETI tem, sua busca vale sim a pena. Pessoalmente, apoio a busca e tenho o BOINC (software usado pelo SETI Institute para fazer o processamento das transmissões de rádio que eles registram) instalado em meu computador, rodando exclusivamente os pacotes do SETI. E doaria também, se tivesse dinheiro suficiente. Afinal, alguma pesquisa deste tipo tem de ser feita.

Autor(es):

Mário César Mancinelli de Araújo

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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