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Vida na Lua Europa?

 

05 - Vida na Lua Europa

É bom que se diga, antes que alguém salte para conclusões precipitadas, que não falamos aqui de “homenzinhos verdes”, ou mesmo de “homenzinhos cinzas”, como aparece na mitologia ufológica. Falamos de vida simples: micro-organismos e, sendo bastante otimista, talvez até pequenos vermes – nada além disto. Mas, ainda assim, vida é vida, não importa o tipo ou tamanho.

A Lua Europa é uma das quatro grandes luas de Júpiter chamadas de “luas galileanas”, por terem sido descobertas por Galileu Galilei em 7 de janeiro de 1610. (As demais luas galileanas são Io, Ganímedes e Calisto.)

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Alguns historiadores afirmam que Simon Marius, de Ausbach, Alemanha, teria sido o primeiro a observar os satélites jovianos, em 29 de Dezembro de 1609. Contudo, Simon Marius só publicou a obra Mundus Iovalis em 1614, na qual ele sobre o tema e afirma ter descoberto as quatro maiores luas de Júpiter dias antes de Galileu. Talvez tal afirmação até possa ser verdadeira, mas ela não tem qualquer corroboração. Ainda assim, os nomes mitológicos pelos quais estas luas são conhecidas atualmente (Io, Europa, Ganímedes e Calisto) são aqueles dados por Marius.

Características geológicas de Europa

Europa orbita Júpiter a cada 3,5 dias tem sua rotação travada – como a Lua da Terra – fazendo com que o mesmo lado de Europa esteja virado para Júpiter o tempo todo. No entanto, devido à órbita de Europa ser excêntrica (isto é, tem órbita uma forma oval, não circular) quando ela está mais próxima de Júpiter a maré é muito mais elevada do que quando está mais afastada. Assim, as forças de maré aumentam e diminuem o mar debaixo do gelo do lado oposto, causando movimento constante e provavelmente causando as rachaduras que vemos em imagens da superfície de Europa em fotos de sondas robóticas.

Europa é um pouco menor que a Lua da Terra (tendo raio de 3128km, enquanto a Lua da Terra tem 3474,8km), mas tem de 2 a 3 vezes mais água do que a Terra. Veja a comparação na ilustração abaixo, publicada no APOD (Astronomy Picture of the Day) de 24 de maio de 2012.

Toda a água na Europa. Crédito da ilustração:  Kevin Hand (JPL/Caltech), Jack Cook (Woods Hole Oceanographic Institution), Howard Perlman (USGS).

Toda a água na Europa. Crédito da ilustração: Kevin Hand (JPL/Caltech), Jack Cook (Woods Hole Oceanographic Institution), Howard Perlman (USGS).

Europa tem composição semelhante a aquela de planetas rochosos: é composto principalmente de rochas de silicatos. O núcleo é metálico composto por ferro e níquel (como o da Terra), rodeado por uma camada de rochas, que por sua vez é rodeado por uma camada externa de água. Essa camada de água tem algo em torno de 100 km de profundidade, com parte dela congelada formando sua crosta (camada superficial). A crosta tem espessura aproximada de 10 a 30 km e o oceano abaixo dela é salgado.

A primeira indicação de que Europa teria um oceano submerso vem de sua própria aparência: cheia de fraturas no gelo, que lembram as quebras em formações de gelo nos mares terrestres. Observações posteriores mostraram que as zonas onde a crosta se quebra moveram-se um em relação ao outro (em ambos os lados) como acontece nos mares gelados da Terra. Isto, mais uma vez, indica líquido (água líquida, no caso) por debaixo, pois caso o gelo chegasse até a camada rochosa não teria como tais movimentos acontecerem.

Vista em corte da possível estrutura interna de Europa. Fonte: NASA.

Vista em corte da possível estrutura interna de Europa. Fonte: NASA.

Isto tudo levanta uma questão interessante: como Europa pode ter uma camada de água líquida a uma distância tão grande do Sol? Afinal, ela orbita Júpiter, que está bem além da área que chamamos de “zona habitável” do Sol. A resposta é relativamente simples: a maré (efeito gravitacional) gerado por Júpiter e outras luas próximas fazem com que o núcleo de Europa se mantenha aquecido, possivelmente gerando até mesmo a existência de fontes hidrotermais.

A possibilidade de vida

Sobre as fontes hidrotermais, da Wikipedia:

Fonte hidrotermal é o nome dado às fumarolas negras (em inglês: black smokers) que ascendem do soalho oceânico, próximo às cadeias oceânicas.

Isto ocorre por que a água do mar infiltra nas fraturas das rochas recém-formadas e vai sofrendo um aumento de temperatura à medida que infiltra, devido ao gradiente geotérmico. Quando essa água alcança uma profundidade em que não ocorrem mais fraturas, ela inicia seu caminho de retorno à superfície. Quando entra em contato novamente com a água do mar há um choque térmico (pois a água ascende com alta temperatura), formando as fumarolas.

A cor negra é devida à grande quantidade de sulfetos que são carreados das rochas por onde a água percolou.

E é exatamente a possibilidade da existência de tais fontes hidrotermais, além da existência de água líquida em si, que faz com que haja uma grande possibilidade de que exista vida em Europa.

Já temos uma boa ideia de como a vida pode ter se formado na Terra, como pode ser lido no artigo “Vida, um produto do universo, não um milagre”. Contudo, ainda não está muito claro onde isto ocorreu: pode ter ocorrido tanto na superfície, nas primeiras “poças” de água, onde teria se formado uma “sopa química”; quanto nas profundezas dos oceanos, justamente em regiões de fontes hidrotermais.

Tais fontes liberam uma grande quantidade de substâncias químicas e de energia (na forma de calor). Isto talvez fosse o suficiente para fazer com que, depois de algum tempo com sucessivas reações químicas, a vida surgisse. E a mesma coisa pode ter acontecido, ou até estar acontecendo, quem sabe, em Europa.

O que podemos afirmar é que, na Terra, mesmo em partes do oceano aonde a luz não chega (como acontece no oceano de Europa, devido à cobertura de gelo), existem pontos com vida bastante próspera: associadas justamente a fontes hidrotermais. Para mais sobre o tema, leia o artigo Vida sem luz.

Comunidade de organismos associada a uma fonte hidrotermal. Crédito: Nature.

Comunidade de organismos associada a uma fonte hidrotermal. Crédito: Nature.

Como encontrar vida lá

O problema de se procurar vida em Europa é justamente a espessura do gelo: como perfurá-lo para enviar uma pequena sonda subaquática? Afinal, são de 10 a 30Km de gelo, imagine a energia necessária para derreter todo esse gelo. E é exatamente por isto que nenhuma sonda robótica foi enviada para lá até o momento.

Contudo, podemos ter acesso livre à superfície de Europa e isto pode ser mais do que o suficiente. Afinal, de tempos em tempos a superfície se racha, fazendo com que a água do oceano abaixo suba e se congele, formando uma nova “cicatriz”. Neste processo é possível que formas de vida (caso existam) sejam carregadas pela a água para a superfície, ficando presas quando a água congela.

O mais interessante são as manchas avermelhadas da superfície de Europa, que lembram muito uma alga chamada Chlamydomonas nivalis, a qual cresce na neve e deixa um aspecto avermelhado, como na foto abaixo.

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Não estou afirmando, ou mesmo insinuando, que seja isto o que ocorre lá e deixa o solo de Europa avermelhado. Apenas especulo a respeito, afinal o fato é que não se sabe o que cria este efeito, ou mesmo se há materiais orgânicos em sua superfície. Segundo a Wikipedia:

Provas espectrográficas mostraram que as raias vermelhas escuras e as características na superfície são ricas em sais tais como sulfato de magnésio, depositados por água que evapora que emerge do interior. Contudo, estes sais são incolores ou brancos quando puros, algum outro material deve estar presente para dar a cor avermelhada. Suspeita-se que sejam compostos sulfúricos ou ferrosos.

Mas quem sabe? Talvez tal avermelhado seja causado por restos de formas de vida, ou até mesmo por algo parecido com a alga Chlamydomonas nivalis, que citei acima. Ou devido a outra substância qualquer, quem sabe? A única afirmação correta a se fazer sobre a questão é a de que precisamos colocar uma sonda robótica na superfície de Europa para verificar essas e outras questões.

Contudo a radiação da magnetosfera de Júpiter bombardeia constantemente a superfície de Europa e pode aniquilar a vida em profundidades rasas, tornando-a difícil de detectar com uma sonda orbital ou mesmo com uma que pouse em sua superfície. Assim, cientistas estão procurando determinar experimentalmente o quão profundo a vida orgânica precisa se esconder para evitar ser destruída em Europa. Ainda assim, talvez a face distante de Europa (que nunca fica virada para Júpiter) possa ser mais segura à vida.

Conclusão

Europa é realmente um mundo fantástico, que nos leva a fazer diversas perguntas, inclusive a mais primitiva: “haverá vida lá fora?”. Talvez por isso mesmo ela tenha aparecido tanto na ficção, como nos livros “2010: Odisseia Dois” e “2061: Odisseia Três”, de Arthur C. Clarke, e “The Forge of God”, de Greg Bear.

É exatamente por isso que, assim como Marte (como você pode ler aqui), Europa é outro ponto de grande interesse em nosso Sistema Solar para a astrobiologia (ciência que estuda a possibilidade de vida fora da Terra e a busca) e, assim como pousamos o rover Curiosity em Marte este ano, deveríamos enviar algo parecido para Europa.

Quem sabe se, assim, responderíamos a estas perguntas? Não sei. O fato é que, quando tais perguntas forem respondidas, diversas outras nascerão, motivando novas pesquisas, pelas quais chegaremos em novas respostas e mais perguntas. Esta é a beleza da coisa e é o que nos motiva para fazer ciência.

Até lá, o único local de onde podemos ter certeza de que há vida é a Terra. E temos de cuidar bem deste nosso pequeno e pálido ponto azul.

Referências

Autor(es):

Mário César Mancinelli de Araújo

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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2 Responses to Vida na Lua Europa?

  1. marcelo disse:

    Parabens pela materia !

     
  2. […] mais informações sobre a possibilidade de vida em Europa, leia “Vida na Lua Europa?” e para mais informações sobre a missão, leia “Nasa está a […]

     

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