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Paradoxo de Fermi – Falácia da Falsa Dicotomia?

 

Muitos já escreveram sobre o Paradoxo de Fermi, então farei uma introdução resumida. Contudo, se você quiser ler uma ótima explicação, bem detalhada, sobre o este paradoxo, indico este ótimo texto do Kentaro Mori, postado no Ceticismo Aberto.

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O paradoxo de Fermi é uma contradição para qual qualquer resposta que lhe seja dado estará incorreta. A questão é que a probabilidade de existência de civilizações extraterrestres é gigantesca, afinal existem centenas de bilhões de galáxias no universo observável, cada uma com uma média também de centenas de bilhões de estrelas. Por outro lado, existe uma total e completa falta de evidências da existência dessas civilizações (Wikipedia).

A questão é que quando Enrico Fermi gritou “Onde estão eles?” ele não tinha a intenção de encerrar o debate, nem mesmo de “provar” que ETs não existem. Ao contrário, ele estava sincera e honestamente intrigado com a falta de evidências. Ao mesmo tempo, por ser cientista (e era um brilhante cientista), ele sabia que a simples falta de evidências não servia para provar coisa alguma.

“A ausência da evidência não significa evidência da ausência.”

– Carl Sagan

Antes de mais nada, vamos examinar as duas respostas que normalmente são dadas para este paradoxo:

  • Civilizações ETs não existem – esta resposta beira a impossibilidade, além do que é simplesmente impossível de ser provada. A ciência não cuida daquilo que “não é”, mas sim daquilo que “nunca foi provado ser diferente”. Além disto, nós sabemos que a vida se forma: somos a prova viva disso (com o perdão do trocadilho). Isto exigiria uma explicação extremamente complexa, talvez divina, para a origem da vida na Terra, o que vai não só contra a própria natureza da ciência, mas também contra tudo o que já sabemos sobre a origem da vida, como exposto no artigo “Vida, um produto do universo, não um milagre”.
  • Civilizações ETs existem – tá, existem. Mas… Então cadê eles?

Mas o Paradoxo de Fermi é uma falácia da falsa dicotomia, como indica o título deste artigo? Antes de responder esta pergunta, vejamos o que é esta falácia. Segundo a Wikipedia:

A falácia da falsa dicotomia (também pode ser chamada de falácia de falso dilema, falácia de pensamento preto e branco, ou falácia de falsa bifurcação), descreve uma situação em que dois pontos de vista alternativos – freqüentemente, mas não necessariamente, dois extremos de um espectro de possibilidades – são colocados como sendo as únicas opções, quando na realidade existe uma ou mais opções que não foram consideradas.

Exemplo:

“Marcos está atrasado para o trabalho. Ou seu carro quebrou, ou dormiu demais. Ligamos para ele e não estava em casa, então seu carro deve ter quebrado.”

Esse argumento é um falso dilema, pois há muitas outras razões pelas quais Marcos poderia estar se atrasando para o trabalho. Se fosse de alguma forma provado que não há outras possibilidades, então a lógica apareceria. Mas até lá o argumento é falacioso.

Assim, ao que tudo indica o Paradoxo de Fermi se encaixaria nesta falácia, correto? Não, errado. O Paradoxo de Fermi não se encaixa nessa falácia, mas a forma como as pessoas o entende é sim uma falácia da falsa dicotomia. Simplesmente porque a pergunta feita por Fermi pode ter dezenas, senão centenas, de respostas diferentes.

Vejamos novamente a pergunta feita por Fermi: “Onde estão eles?”. Esta é a frase mais conhecida, mais divulgada, mas terá sido exatamente isto o que Fermi questionou? Bem, na realidade existe uma outra versão, mais completa ou, ao menos, mais longa: “Se eles existem, onde estão?”.

Em minha opinião a segunda frase é a mais provável, pois, ao contrário do que muitos imaginam, Fermi realmente acreditava que civilizações ETs existam (quem leu o artigo do Kentaro que indiquei sabe disso). De qualquer forma, tendo sido uma ou outra, o fato é um só: Fermi jamais questionou a existência de ETs, ao contrário, ele parte justamente da premissa de que eles existam. Ele simplesmente perguntou onde eles estão, já que não existem evidências de que já tenham nos visitado.

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Assim, é óbvio que ambas as respostas estarão erradas. E o motivo é simples:

  • Civilizações ETs não existem – foge totalmente da premissa da qual Fermi parte.
  • Civilizações ETs existem – é exatamente a premissa da qual Fermi parte.

Ou seja: ambas as respostas, na realidade, não respondem nada.

Agora, analisemos corretamente a questão. Por que diabos ETs deveriam estar aqui? E, caso estejam, ou tenham estado, porque diabos teríamos de ter evidências disso? Mais: talvez nós mesmos sejamos os ETs, caso a Hipótese da Panspermia esteja correta, e ainda assim não temos qualquer evidência (nem que confirme, nem que negue).

Colocado desta forma, o “Paradoxo” de Fermi simplesmente não existe, ele deixa de ser um paradoxo. Ele pode ter dezenas, senão dezenas, de possíveis respostas como afirmei anteriormente, cada uma delas podendo estar correta ou incorreta (o problema é apenas verificar cada uma delas com nossa atual tecnologia).

De qualquer forma, esta pergunta tem um problema grave: ela presume apenas e tão somente civilizações colonizatórias. Mas… Será que uma civilização que passa pelo risco de extinção por um holocausto nuclear e sobrevive continuará tendo o ímpeto colonizatório? Será que uma civilização que passa pelo risco de extinção devido à fome (seja por mudanças climáticas como o nosso aquecimento global, seja por super população, etc) e sobrevive continuará tendo o ímpeto colonizatório?

Sinceramente não sei. Talvez sim, talvez não. Talvez algumas sim e outras não, ou talvez nenhuma delas sobreviva. Mas, mesmo sobrevivendo, porque uma civilização colonizaria toda uma galáxia? Instinto de auto preservação? Mas colonizando dois ou três planetas em sistemas diferentes já não garantiria a sobrevivência da espécie? Seria por pura ganância?

Enfim, acho que perdemos muito tempo tentando responder perguntas que nem sabemos se são as corretas, ao invés de tentar encontrar as corretas de fato. Devemos perguntar mais, debater mais. Para depois, quem sabe, chegar a alguma resposta. 😉

Autor(es):

Mário César Mancinelli de Araújo

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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