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Avatar: Poderia existir vida daquela forma?

 

Antes de mais nada, um aviso: aqueles que ainda não assistiram ao filme, recomendo que primeiro assistam para depois ler. Digo isto porque neste artigo cito muitas coisas que são apresentadas durante o filme, além do que ficará mais fácil para entender este artigo depois de assistir ao filme.

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1. Introdução

No filme o personagem principal viaja até uma lua chamada Pandora, a qual orbita um gigante gasoso que orbitaria uma das estrelas do sistema Alfa Centauri e lá é apresentado a toda uma biodiversidade que, em alguns pontos, se assemelham à nossa, mas que em essência é bem diferente.

Dentre todas as formas de vida apresentadas no filme, aqueles que mais chamam atenção são duas espécies de planta e os animais em si.

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A primeira espécie de planta tem formato espiralado, é alaranjada e apresenta um elemento mais comum em animais do que de plantas em nosso planeta: comportamento reativo (quer dizer, ela reage a determinadas ações). Esta planta, quando tocada, se fecha completamente. Isso poderia ser um comportamento de autodefesa ou talvez de predação mesmo (como algumas de nossas plantas carnívoras).

Outra espécie de planta muito interessante são as chamadas “Árvores de Vozes” (Trees of Voices). Essas árvores se parecem muito com nossos chorões, mas tendo mangueiras de LEDs (daqueles usados no natal), ao invés de galhos e folhas. Digo isto porque, no filme, esses galhos destas árvores se iluminam à noite (biolumenescência). A primeira das duas características mais interessantes destas árvores é a conexão em rede que elas formam por tudo o planeta, como verdadeiros neurônios. A segunda é que, quando os Na’vi se conectam a elas eles ouvem vozes (daí o nome dessas árvores).

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Quanto aos animais, o interessante são as terminações nervosas expostas, que serve para que animais de diferentes espécies possam se conectar diretamente, cérebro a cérebro. No caso dos Na’vi, estas terminações nervosas aparecem por entre seus cabelos, no final do rabo de cavalo que todos eles têm/usam. Quanto aos demais animais, essas terminações nervosas ficam numa espécie de “aste” que sai de suas cabeças.

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2. Possibilidades

A possibilidade de tais coisas existirem de fato, em algum canto do universo, é algo controverso. Contudo, baseando-nos naquilo que conhecemos (nossa biodiversidade), podemos chegar a algumas conclusões práticas.

Quanto às plantas, aqui na Terra mesmo temos algumas bastante diferentes, exóticas digamos, como pode ser visto abaixo (estas fotos foram retiradas aqui).

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Bastante interessantes, não? Pois é, mas a foto da esquerda não é exatamente uma planta. Na realidade, é um animal: é um anelídeo séssil marinho, um Pogonóforo Vestimentífero (aqui há outra fonte, em inglês), habitante das proximidades de hidrotermas batiais, vive a centenas de metros de profundidade (abaixo dos 2.500m). (Com agradecimentos ao Rodrigo, do Evolucionismo.org)

Além disto, nós temos plantas que apresentam reações e movimentos, como é o caso das plantas carnívoras que citei anteriormente. Há ainda outras espécies como a Mimosa Pudica ou Dormideira, que quando têm suas folhas tocadas elas se fecham. Veja o vídeo abaixo.

Mas e quanto as Arvores de Vozes, que formam uma rede como verdadeiros neurônios e guardam as memórias (e vozes) do povo Na’vi? Aqui temos um problema maior, afinal plantas não têm neurônios, apenas animais têm. Mais que isso, não conhecemos nenhum exemplo de plantas que apresentem essa função. Tudo o que conhecemos a respeito disso vem justamente de especulações sobre possíveis formas de vida extraterrestres, como os Lolly Gars ou as varas oscilantes, que seriam alguma coisa entre uma planta e um animal. Estas criaturas foram apresentadas no episódio Rostos Alienígenas, da terceira temporada da série O Universo. Estas são especulações científicas, é verdade, mas ainda assim temos de lembrar que são apenas especulações!

Quanto às terminações nervosas expostas dos animais, seria algo mais fácil. Bastaria que uma espécie animal primitiva tivesse desenvolvido essa característica, esse diferencial, para que todos os animais que viessem a evoluir a partir dela tivessem essa mesma característica. Ainda assim, para que essa espécie animal sobrevivesse e evoluísse, primeiro ela teria de ser “selecionada” pela natureza. Isto é, esta característica teria que trazer um benefício muito grande a ela quanto à competição por alimento e pela sobrevivência, caso contrário ela seria extinta e nada disso seria possível. Contudo, devemos nos lembrar que animais aqui na Terra desenvolveram características exóticas com fins unicamente reprodutivos (a cauda do pavão, por exemplo).

Um tema ainda mais polêmico é quanto à aparência dos Na’vi: eles têm forma humanóide. Isto é, eles têm uma cabeça, um tronco, dois membros superiores, dois membros inferiores e andam de pé. Pelo que já foi declarado à imprensa, a maioria dos astrobiólogos parece achar impossível que venhamos a encontrar seres inteligentes com esta aparência. Contudo, de novo sou obrigado a lembrar que precisamos analisar as possibilidades conforme aquilo que conhecemos.

Na Terra os animais hoje dominantes (os mamíferos) têm sempre uma cabeça, um tronco e quatro membros. Até nascem alguns animais com mutações, como animais de duas cabeças, mas parece ser algo que não dá muito certo, afinal tais animais não costumam sobreviver muito tempo na natureza. Idem a animais que nascem alguns animais com mutações que alteram o número de membros, por exemplo. Mesmo outros animais, como as aves, têm essa configuração, trocando apenas os membros posteriores por asas. Peixes também costumam ter nadadeiras frontais e traseiras, apesar de muitas vezes também têm nadadeiras dorsais. Portanto parece que a configuração de mais de quatro patas parece funcionar apenas para animais que tenham exoesqueleto (ou nenhum esqueleto, como polvos e lulas).

Assim, em minha opinião é muito provável que venhamos a encontrar vida ET inteligente com formato humanóide, visto que:

  1. Grande parte da vida que conhecemos (da Terra) tem 4 membros;
  2. Para chegarem à inteligência, os candidatos terão de ter pelo menos dois membros livres para poder manipular ferramentas, criar arte, etc.

Além disso, provavelmente nada disso possa existir em uma lua de um gigante gasoso no sistema Alfa Centauri, como pode ser lido neste artigo. Mas ela poderia existir em outros lugares, como pode ser lido neste outro artigo.

3. Conclusões

Como visto, algumas coisas apresentadas pelo filme parecem ser mais prováveis, enquanto que outras parecem bastante improváveis. Ainda assim, acho que podemos concluir que será quase impossível encontrar um lugar que reúna espécies animais e vegetais que casem perfeitamente com o apresentado no filme.

Contudo, não há como dizer que qualquer uma delas seja totalmente impossível, afinal o universo é extremamente vasto. Pode ser que existam até mesmo seres idênticos a nós, a criaturas mitológicas e, porque não, mesmo com os chamados “greys” que alguns alegam nos visitar. Mas, obviamente, possibilidades sem evidências são apenas possibilidades. Improvável, mas possível.

Quanto ao filme Avatar, é realmente um ótimo filme, mas é apenas isso mesmo: um filme.

Finalmente, não tive a pretensão de escrever um artigo completo (que esgotasse o tema), nem um artigo totalmente correto (que não levantasse polêmicas). A idéia é dar apenas um “ponta-pé inicial” para um debate maior, não somente quanto às possibilidades de existência de vida como a de Avatar, como também quanto às possibilidades de existência de vida como aquelas apresentadas em outros filmes. Ou seja, a intenção é quebrar alguns tabus e alavancar o debate sobre astrobiologia.

Autor(es):

Mário César Mancinelli de Araújo

Sou formado em Engenharia de Software e QUASE em Ciência da Computação (não concluí). Pretendo, agora, fazer astronomia na USP assim que possível para, depois, me especializar em astrobiologia. Sou um apaixonado pela ciências em geral e gosto muito de investigar alegações extraordinárias (como a ufologia, por exemplo).

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One Response to Avatar: Poderia existir vida daquela forma?

  1. Parabéns pelo artigo, Mário César.
    De fato quando nos debruçamos sobre as conjecturas da astrobiologia nos encontramos praticamente no limiar entre a ficção e a realidade…enquanto não for possível constatar a vida inteligente fora da Terra, temos que nos contentar com a fantasia sobre “que forma ela poderia ter”. Mas trata-se de um exercício interessante e vale citar que autores como Carl Sagan e Arthur C. Clarke executam essa imaginação com maestria (sem os efeitos especiais do cinema mas com muita base científica!)
    Abraços
    Dener Pã

     

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